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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

PUC-SP fecha câmpus para impedir 'Festival da Cultura Canábica'


Marcelo Godoy e Ocimara Balmant - Especial para o Estado
O principal câmpus da PUC, na Rua Monte Alegre, ficará fechado nesta sexta-feira em São Paulo. O reitor, Dirceu de Melo, suspendeu as aulas e todas as atividades administrativas para impedir a realização do Primeiro Festival da Cultura Canábica, organizado pelo Facebook, que, até ontem à noite, já tinha mais de 6 mil confirmados. Assim que a nota de Melo suspendendo as atividades foi divulgada, os organizadores começaram a se mobilizar, no próprio Facebook, para que o evento não seja cancelado.
'Festa não tinha como dar certo', disse um dos alunos - Reprodução
'Festa não tinha como dar certo', disse um dos alunos.
“Eu tenho que considerar a situação em função do que acontece. Quando soube do objetivo e do alcance desse evento, achei que fechar o campus era o mais apropriado. Se insistirem, terei de tomar outras providências”, diz Melo.
Alunos criticaram a decisão do reitor. “A decisão mostra o conservadorismo da instituição. Se falar sobre a descriminalização da maconha fosse apologia, tem ex-presidente brasileiro em conta com a justiça”, disse uma aluna. Outros, pediam que todos comparecessem para que fosse organizada uma invasão.
Há outros, no entanto, que não aprovam a festa. “Lugar de discutir legalização não é na PUC com uma festa para 6 mil pessoas fumando e bebendo a vontade. PUC virou sinônimo de baderna por causa de pessoas assim”, postou uma estudante de direito.
Para Stefano Wrobleski, 21, aluno do 3.º ano de jornalismo e membro do centro acadêmico, “perder aula só para que a festa não aconteça é um absurdo”. “O pior é que isso abre um precedente para que isso aconteça outra vez. Essa festa não foi organizada pelo diretório, mas o que vejo é que a diretoria quer uma PUC sem festas. E isso não está certo. Universidade não serve só para aulas, mas também é um lugar de convivência."
O delegado Wagner Giudice, diretor do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), afirmou que os organizadores do festival da cultura canábica serão investigados pela Polícia Civil. “Um inquérito vai apurar, e seus organizadores terão de prestar esclarecimentos”, afirmou.
Em tese, além do crime de apologia ao uso de drogas, os organizadores podem ser acusados de associação para o tráfico de drogas, crimes punidos com detenção de 3 a 6 meses e com 3 a 10 anos de prisão, respectivamente. Em seu ato, o reitor da PUC afirma que um inquérito foi aberto pela polícia e diz ainda que a universidade vai prestar esclarecimentos sobre as providências tomadas para evitar o festival.
No ato que publicou, o reitor afirma que a decisão da suspensão das aulas considera outros problemas que têm ocorrido com frequência. Ele afirma que as festas nas noites das sextas-feiras ganharam proporções inadmissíveis por conta do barulho, duração até a madrugada e uso “não dissimulado de bebidas alcoólicas e entorpecentes, afora outras condutas reprováveis.” Dirceu diz também que tem havido reclamações dos vizinhos, alunos e pais de alunos e que, recentemente, até a encenação de um espetáculo no Tuca, o teatro da universidade, foi prejudicada pelo barulho. / COLABOROU CEDÊ SILVA, ESPECIAL PARA O ESTADO 

Fonte: Estadão

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Maconha faz emagrecer?

 

Até as caixas de papel-gomado vendidas nas bancas de revistas sabem que fumar maconha aumenta o apetite. E se aumenta o apetite e há ingestão de comida sem queima de calorias, em tese, alguns gramas são ganhos.

Cerca de cinco anos atrás e sobre a economia canábica, escrevi um artigo na revista CartaCapital, me referi a um estudo feito em Londres. O estudo mencionava o consumo elevado de pizzas entre usuários que, com as namoradas, passavam os sábados em casa, a fazer uso canábico (fumacê, diriam os adolescentes) e a assistir filmes alugados. Lucravam as pizzarias, as locadoras e as fábricas de refrigerantes e cervejas.

Um estudo feito por pesquisadores franceses do Instituit National de la Santé et de la Recherche Médicale (Inserm) que acaba de ser publicado noAmerican Journal of Epidemiology, coloca em dúvida a tese de que maconha abre o apetite. Pela pesquisa, fumar maconha emagrece.

Para os pesquisadores, o porcentual de obesidade para quem fuma (dá um tapa, diriam os jovens) cigarro de maconha pelo menos três vezes por semana é mais baixo, 33%, em comparação com os não fumantes.

Os autores do estudo analisaram duas fontes de dados colhidos com cerca de 52 mil norte-americanos.

Com base na primeira fonte, descobriram que a obesidade atingia 22% daqueles que não fumavam maconha em contrapartida a 14% dos usuários habituais. A segunda fonte mostrou que 25% dos não fumantes eram obesos, isto com relação a 17% dos consumidores regulares.

Os pesquisadores alertaram que “qualquer que seja a explicação sobre a correlação ‘obesidade x consumo de maconha’ é improvável que a canabis possa substituir uma dieta eficaz”.

Fonte: Blog do Valter Maierovitch

Mais uma aplicação medicinal para a maconha

 

Estudo da UFSC engrossa lista de benefícios que substância presente na planta pode proporcionar à saúde humana. Experimentos mostram que composto é eficaz no tratamento de memórias traumáticas.

Mais uma aplicação medicinal para a maconha

Plantação de ‘Cannabis sativa’. Pesquisa mostra que substância extraída da planta pode ser eficaz para tratar sequelas emocionais causadas por traumas.

Uma erva conhecida pela humanidade há mais de 4 mil anos e que tem uma série de aplicações medicinais comprovadas se mostrou promissora também no tratamento de sequelas emocionais causadas por traumas. O efeito é produzido pelo canabidiol, substância presente na maconha (Cannabis sativa) e que pode substituir vários medicamentos usados em tratamentos psicológicos, evitando seus efeitos colaterais.

O potencial de uso de C. sativa para a atenuação de traumas foi apontado recentemente pela equipe liderada pelo farmacologista Reinaldo Takahashi, no Laboratório de Psicofarmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Os pesquisadores utilizaram um modelo experimental comum em estudos que trabalham com estresse pós-traumático, que consiste em provocar traumas em camundongos por meio de choques elétricos sutis nas patas.

“Além de não produzir melhora clínica em todos os pacientes, os medicamentos hoje disponíveis podem causar efeitos colaterais”

“Quando colocado novamente no ambiente em que levou o choque, mesmo vários dias após o trauma, o animal responde autonomamente com um estado de ‘congelamento’, ou seja, fica imóvel”, conta Takahashi. Em termos neurológicos, a resposta é a mesma apresentada por uma pessoa que, após ser assaltada ou sofrer um acidente de trânsito, sente medo ao passar pelo local onde enfrentou a situação traumática.

Para tratar esse tipo de transtorno, geralmente o paciente é exposto várias vezes ao mesmo ambiente e deixa de ter sintomas de ansiedade com a ajuda de antidepressivos. “Mas, além de não produzir melhora clínica em todos os pacientes, os medicamentos hoje disponíveis podem causar efeitos colaterais”, diz o pesquisador.

No laboratório da UFSC, o doutorando em farmacologia Rafael Bitencourt descobriu que, ao receber doses de canabidiol, animais com memória traumática tiveram os sintomas de ansiedade reduzidos graças à interação entre o sistema corticosteroide, importante na regulação do metabolismo, com o sistema endocanabinoide.

A produção, pelo cérebro, de substâncias endocanabinoides (que têm esse nome por se assemelhar a componentes da maconha, mas de origem endógena) é que facilitaria o processo de reaprendizado emocional. Takahashi explica ainda que o canabidiol não tem os efeitos colaterais dos medicamentos utilizados hoje no tratamento de traumas.

            Teste com camundongo
Pesquisador faz teste de condicionamento com camundongo no Laboratório de Psicofarmacologia da UFSC. Animais com memória traumática tratados com doses de canabidiol tiveram os sintomas de ansiedade reduzidos (foto: Thiago Silva/ UFSC)

Segundo o pesquisador, desde a Antiguidade há relatos de usuários de maconha sobre os efeitos do canabidiol na extinção de memórias aversivas, o que direcionou algumas investigações farmacológicas.

“Em um congresso internacional recente ouvi relatos de veteranos de guerra norte-americanos sobre melhora no quadro de transtorno de estresse pós-traumático quando fumavam maconha”, conta. Mas ele ressalta que, como ex-combatentes podem usar várias drogas simultaneamente, não é possível dizer se o efeito é consequência direta de C. sativa.

Pesquisas com maconha

Estudos feitos em diversos países apontam que o canabidiol, que representa mais de 40% dos extratos de C. sativa, é eficaz no tratamento de depressão, esquizofrenia, epilepsia, transtorno bipolar e até leucemia e doenças neurodegenerativas, como mal de Alzheimer, além de ajudar a conter inflamações e controlar a pressão arterial.

O canabidiol é eficaz no tratamento de depressão, esquizofrenia, epilepsia, transtorno bipolar e até leucemia e doenças neurodegenerativas

Os efeitos psicoativos da maconha, que alteram temporariamente a percepção, o humor, o comportamento e a consciência de quem a consome, estão ligados sobretudo a outro canabinoide presente na erva: o tetraidrocanabinol (THC, na sigla em inglês).

Mas mesmo o THC apresenta efeitos de interesse medicinal. O Sativex, medicamento indicado no tratamento de esclerose múltipla, lançado em 2005 no Canadá, por exemplo, tem como princípio ativo uma combinação de THC e canabidiol. Outros dois medicamentos que utilizam o princípio ativo da maconha ajudam pacientes a conter náuseas e vômitos durante tratamentos quimioterápicos.

Na UFSC, além do efeito contra memórias traumáticas, Takahashi orienta estudos com o canabidiol que avaliam o potencial da substância no tratamento de dependência de morfina e na proteção do sistema nervoso em animais com doença de Parkinson.

Restrições

“Considerando que C. sativa tem cerca de 400 constituintes químicos e mais de 80 fitocanabinoides, é possível identificar outros compostos de interesse farmacológico”, diz o pesquisador. Mas ele ressalta que a dificuldade de trabalhar com substâncias psicotrópicas impede que pesquisas com outros compostos da maconha avancem no nosso país.

“As exigências para importar essas substâncias de países onde a produção é permitida são tão grandes, que muitos pesquisadores na área de drogas de abuso desistem de trabalhar com certos compostos”, diz Takahashi. “No caso do canabidiol, o aspecto crucial que permite sua importação é o fato de ele não ser considerado psicoativo.”

No Brasil, a lei 11.343, de 2006, proíbe “em todo o território nacional, as drogas, bem como o plantio, a cultura, a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas”. Conforme a legislação, a União pode autorizar o cultivo de maconha “exclusivamente para fins medicinais ou científicos”, “em local e prazo predeterminados” e “mediante fiscalização”.

Célio Yano

Fonte: Ciência Hoje On-line/ PR

domingo, 28 de agosto de 2011

Escavações para construção do polo petroquímico revelam turbulento passado do Estado do Rio


As ruínas do convento São Boaventura. Foto: Gustavo Stephan 31/08/2007
RIO - Não é de hoje que Itaboraí, lar do futuro Complexo Petroquímico do Rio (Comperj), é uma região concorrida. Nos últimos quarenta séculos, aquela região foi habitada pelos pré-históricos sambaquieiros, por ceramistas tupinambás, jesuítas e escravos. De boa parte dessa trajetória sobraram objetos de poucos centímetros, mas grande relevância arqueológica. Entre eles, um tembetá, enfeite tupi pela primeira vez encontrado no estado, e cachimbos, onde a descoberta de maconha surpreendeu os pesquisadores.

Estes objetos estão reunidos a partir de hoje no Museu Nacional. A exposição "Santo Antônio de Sá: primeira vila do Recôncavo da Guanabara" conta a história da ocupação estabelecida ali pelos portugueses em 1697. Pioneiro no interior fluminense, o assentamento seria abandonado apenas no século XIX, devastado por epidemias de febre, malária e tifo.

A mostra representa um esforço para estudar as heranças culturais dispersas nos 45 sítios arqueológicos da região. Embora volte os holofotes para Santo Antônio de Sá, a exposição não deixa de abordar os povos que dominaram o Norte fluminense muito antes dos lusitanos.

- Para a instalação de qualquer grande obra no país, como o Comperj, é necessário fazer uma investigação arqueológica da região, como a que operamos agora - ressalta Madu Gaspar, arqueóloga do Museu Nacional e coordenadora da exposição. - E houve muitas surpresas em nosso trabalho. Encontramos novos registros de sambaquis e da ocupação africana. Suspeitávamos que havia escravos por ali, mas ainda não tínhamos qualquer evidência. Conseguimos finalmente este testemunho, descobrindo uma coleção de mais de cem cachimbos feitos pelos negros e seus descendentes.

Tupinambás, os primeiros escravos
Muito antes de a sociedade do século XVIII encher seus cachimbos com maconha, as terras eram dos sambaquieiros. Quatro mil anos atrás, esta população já estava distribuída por toda a costa fluminense, onde pescava e construía portos para chegar com suas canoas.
Os sambaquieiros habitavam locais secos, embora o mais próximos possível do mar. A marca registrada desse povo eram os sambaquis, um amontoado de conchas, restos de alimentos e artefatos, que ocasionalmente serviam como tumbas.

- Foi o primeiro povo a colonizar a região, e o fez numa área diferente à de seus sucessores - compara Madu. - Enquanto eles estavam sempre na baía, os tupinambás buscavam rios pequenos, porque, para eles, o mais importante era encontrar terras onde pudessem praticar a agricultura.

Proveniente da Amazônia, os tupinambás expandiram-se a partir do início da era cristã, sempre pela guerra. Os confrontos com os índios macro-jê perduraram séculos e foram testemunhados pelos portugueses, que aproveitam a rivalidade tribal para unir-se cada hora a um dos lados. Os vencidos lhes serviam como escravos.

Estranhos às terras tropicais e ao seu cultivo, os portugueses priorizam a ocupação das áreas indígenas - assim, bastava delegar-lhes o trabalho no campo.

- Os portugueses não sabiam sequer se os nativos tinham alma e se deveriam ser reconhecidos como gente. Mas isso não os impediu de depender do conhecimento desses mesmos índios para sobreviver - observa Madu. - Houve, porém, uma inadequação dos índios àquela atividade. O estilo de vida deles não era compatível a um trabalho rotineiro e sistemático no campo.

Cansados de uma tarefa na qual não viam sentido, os tupinambás fugiram para áreas vizinhas - alguns não saíram a tempo de evitar uma represália violenta dos portugueses. Sem ter quem os sustentasse naquele povoado, fundado em 1648, e renomeado Vila Santo Antônio de Sá em 1697, os portugueses recorreram aos escravos africanos que já serviam como motor da economia carioca.

Os tupinambás se mudaram para os arredores da vila - ainda brigando entre si. Um de seus legados, que integra a exposição no Museu Nacional, é o tembetá. Trata-se da primeira vez que os pesquisadores identificam este adorno, de apenas três centímetros, no estado.
A peça era considerada uma joia pelos tupis no século XVI. Graças a ela, foi possível saber como essas tribos distribuíram-se em terras fluminenses nas primeiras décadas após o Descobrimento.

- Era um adereço usado pelos homens desde a infância - explica Madu. - Quando a criança nascia, faziam um pequeno orifício em seu lábio, que aumentava com o tempo. Este era verde, talvez de quartzo, e ficava com uma protuberância para o lado de fora. Podia, também, ser usado na orelha, o que vem sendo feito hoje por muitos jovens.

Sucessores dos índios, os escravos assumiram a agricultura e a produção de açúcar - à época uma especiaria - e de lenha. A madeira cortada do Norte fluminense era levada de barco para o Rio, onde abastecia lareiras e fogões.

Assim como os tupis, os africanos também deixaram objetos curiosos para os arqueólogos desvendarem. Um deles era a fôrma do pão de açúcar, que tinha furinhos no fundo. A cana era espremida e o açúcar ficava no molde, enquanto o melaço escorria para fora dele.
- Foi esta fôrma que deu o nome do Pão de Açúcar, nosso cartão postal - destaca Madu. - Depois, o açúcar era usado em chás. Ao contrário de hoje, em que é consumido em larga escala, no século XVIII este produto era muito caro.

Outra curiosidade descoberta entre os vestígios da vila é uma coleção de dezenas de cachimbos africanos. Chamou a atenção dos pesquisadores o tamanho da pipa, muito pequena em alguns exemplares. Seria o indício de que eles receberiam algo mais forte do que o fumo comum. E a suspeita foi confirmada pela análise de microvestígios ali encontrados.- Havia restos de maconha nos cachimbos - conta Madu. - Ainda precisamos fazer mais análises para confirmar. Se for isso mesmo, é muito provável que a substância fosse fumada por todos as classes sociais, e não apenas escravos. Houve uma mistura muito grande entre brancos e negros. Há gravuras da época mostrando até mesmo as mulheres europeias com os cachimbos.

No século XVIII, madeira e produtos agrícolas contribuíram para que a vila atingisse seu apogeu econômico. O centro nervoso local era o Convento de São Boaventura, administrados pelos jesuítas. Mas tudo foi reduzido a ruínas a partir dos anos 1800, quando a região, encharcada e pantanosa, foi vítima de seguidos surtos de doenças. Sem qualquer domínio sobre saneamento básico, restou à população - cujo tamanho ainda é ignorado pelos arqueólogos - mudar-se para áreas mais elevadas.

Os vestígios do convento sobreviveram até hoje por se localizarem numa propriedade privada, e num local de difícil acesso. Ao redor dele estão os campos de onde saíram, por exemplo, as faianças, porcelanas portuguesas e espanholas com brasões de famílias que deram origem ao sobrenome de grande parte dos brasileiros - Silva entre eles. A exposição, que conta com o apoio da Petrobras e da Sociedade dos Amigos do Museu, está aberta ao público de terça a domingo, das 10h às 16h, até o dia 26 de novembro. A entrada custa R$ 3.

Fonte: O Globo